CRAS DO MICÉLIO

São Paulo, 2013

Stephan Doitschinoff
doitschinoff.com

Pelas redes sociais, as pessoas são convidadas pelo artista a participar da performance/marcha realizada em São Paulo, nas ruas do bairro Pinheiros. Elas deveriam estar no lugar e no horário indicados, vestidas com trajes previamente sugeridos. O convite as leva a uma marcha, que se assemelha a uma procissão religiosa e é composta por participantes mascarados que carregam estandartes com a imagem da Jurema Preta, além de diversos adereços como bonecos gigantes, esculturas e ornamentos, em referência a elementos ligados ao Xamanismo e a compostos psicoativos.

A performance, que contou com a participação de Iggor Cavalera, Laima Leyton e Elisa Gargiulo, traz ao espaço urbano da capital paulista um imaginário relacionado às propriedades psicoativas de plantas, fungos e extratos vegetais, cujo uso está ligado à práticas espirituais, medicinais e ritos de passagem de povos originários.

Cras significa “amanhã”, em Latim, e micélio é o nome que se dá ao conjunto de hifas de um fungo, uma alusão às plantas enteógenas (termo que quer dizer “manifestação interior do divino” e que faz referência às propriedades de alteração da consciência). Na performance, estandartes trazem estampado um cogumelo, um dos ícones das plantas de poder psicoativo.

O artista, que também tem um potente trabalho gráfico, inspira-se na lógica hacker para adentrar estruturas conservadoras, especialmente aquelas ligadas à igrejas e cortejos militares, inserindo mensagens subversivas nesses espaços. Partindo da subversão do imaginário e de uma estética religiosa, ele retira o conteúdo conservador e inclui ali outras mensagens, buscando aproximar-se das pessoas com o seu trabalho, uma vez que em nossa cultura as imagens cristãs, assim como as de raiz africana, têm uma força muito grande. No caso de “Cras do Micélio”, as intervenções carregam um conteúdo relacionado às plantas psicoativas e psicodélicas e trazem à tona reflexões sobre como o nosso sistema capitalista desconsidera o uso das plantas e sua relação com uma matriz espiritual.

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Through social networks, people are invited by the artist to participate in this performance/march held in Sao Paulo, on the streets in the neighborhood of Pinheiros. They are to be in the set time and place, wearing previously suggested clothing. The invite takes them to a march, the appearance being similar to a religious procession, and is composed of masked participants who carry banners bearing the image of Jurema Preta, as well as a variety of ornaments like gigantic dolls, sculptures and decorations, in reference to elements linked with Shamanism and psychoactive composites.

The performance, which included the participation of Iggor Cavalera, Laima Leyton and Elisa Gargiulo, brings to the urban space of the capital of São Paulo something imaginary, relating to the psychoactive properties of plants, fungus and vegetable extracts, the uses of these being linked to spiritual and medicinal practices as well as the rites of passage of indigenous peoples.

Cras means “tomorrow” in Latin, and mycelium is the name given to the group of hyphae of a fungus, alluding to the entheogenic plants (term that means “interior manifestation of the divine”) and which makes reference to the referencing their consciousness-altering properties).In the performance, banners bear the image of the mushroom, one of the icons of the psychoactive power of plants.

The artist, who also has done potent graphic works of his own, finds inspiration in hacker logic to get into conservative structures, especially those affiliated with churches and military parades, inserting subversive messages in these spaces. His starting point being the subversion of the imaginary and of the religious aesthetic, he removes the conservative content and puts other messages in its place, seeking to get closer to people with his work, since in our culture the Christian images, as well as those with African roots, have great power. In the case of Cras of Mycelium, the manifestations carry within themselves a content related to psychoactive and psychedelic plants, and bring reflections to the surface about how our capitalist system disregards the use of plants in relationship to a spiritual template.