guerra é guerra

Rio de Janeiro, 2002-2014

Ronald Duarte
www.ronalduarte.com

A série “Guerra é Guerra”, do artista carioca Ronald Duarte, é composta por uma série de trabalhos que envolvem a questão da violência nas cidades, em especial na cidade do Rio de Janeiro. O tradicional bairro de Santa Tereza, assim como muitos outros, é um lugar onde acontecem diversas atrocidades, e foi cenário do trabalho “O que rola VC VÊ” (2001), no qual o artista contrata um caminhão pipa para “lavar” as ruas do bairro com corante vegetal vermelho, numa clara alusão ao sangue que corre pelas ruas da cidade. As ruas cheias de “sangue” se transformam em um cenário macabro que se abre para as mais diversas reações da população.

Em “Fogo Cruzado” (2002), também rea-lizado no bairro, o artista, com a ajuda de vários colaborabores, ateia fogo em 1500 metros do trilhos do bondinho. A ação acontece no auge dos conflitos entre grupos de traficantes rivais que disputam territórios do tráfico. Em outra obra da série, “A Sangue Frio” (2003), o artista embala grandes blocos de gelo com corante vermelho em cobertores usados normalmente por moradores de rua e os espalha pelo centro da cidade. Os cobertores a princípio se parecem com crianças dor-mindo e conforme o tempo vai passando e o gelo vai derretendo e vão se formando poças de sangue pelas calçadas e ruas. No trabalho mais recente, “Mar de Amor” (2014), o artista tinge um quilômetro de mar usando 100 quilos, de pó de beterraba desidratado.

A poética do trabalho de Ronald Duarte é marcada pela presença das diversas formas de violência, vivenciadas nas cidades. Nesta série de trabalhos, ele chama a atenção para a naturalização dos assassinatos cometidos pela polícia e pelas facções que comandam o tráfico e também para uma espécie de invisibilidade da pobreza e das desigualdades sociais. Chama a atenção para o “fogo cruzado” no qual a população está envolvida diariamente. Banhar, ou lavar, as ruas com sangue mostra que muito sangue já rolou por aquelas ruas, mesmo que às vezes não seja visto ou divulgado de fato. Nos mostra que ações violentas existentes na cidade, muitas vezes invisíveis aos olhos da classe média, apontam para o desastre da guerra urbana, que é local, porém também é universal, e está presente em qualquer metrópole ou comunidade do mundo, onde jovens renegados pelo sistema perdem suas vidas todos os dias.

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The series “Guerra é Guerra” [War is War], by artist Ronald Duarte, is composed of a series of works that involve the question of violence in the cities, especially in the city of Rio de Janeiro. The traditional neighborhood of Santa Tereza, like many others, is a place where a variety of atrocities occur, and it was the scenery for the work “O que rola VC VÊ” [What goes down, you see] (2001), in which the artist hires a tanker truck to “wash” the streets of the neighborhood with red food coloring, in a clear allusioin to the blood that flows through the city streets. The streets full of “blood” transform themselves into a macabre scenery that opens itself up to the most diverse reactions amongst the population.

In “Fogo Cruzado” [Crossfire] (2002), also taking place in the neighborhood, the artist, with the help of several collaborators, set fire to 1500 meters of trolley train tracks. The action occurs at the height of the conflicts between rival groups of drug traffickers that dispute drug turf. In another work from the series, “A Sangue Frio” [In Cold Blood] (2003), the artist takes big blocks of ice made with red food coloring and wraps them in blankets normally used by homeless people and spread them throughout the city. The blankets at first appear to cover sleeping children, and as time goes on and the ice melts, pools of blood begin to form on the sidewalks and streets. In the most recent work, “Mar de Amor” [Sea of Love] (2014), the artist dyes 1 km of ocean by using 100 kilos of powdered beets.

The poetics of Ronald Duarte’s work is marked by the presence of diverse forms of violence, experienced in the cities. In this series of works, he calls attention to the naturalization of the murders committed by the police and by the factions that control the drug trafficking, and also to the sort of invisibility of the poor and of the social inequalities. He calls attention to the “crossfire” in which the population is involved daily. To bathe, or wash the streets with blood shows that much blood has been spilled on those streets, even though sometimes it is not seen or actually reported. It shows us that violent actions that exist in the city, often invisible to the middle class, point to the disaster of urban warfare, which is local, however also universal, and is present in any metropolis or community in the world, where youths that are rejected by the system lose their lives every day.