Ônibus tarifa zero

São Paulo, 2014-2015

grazi kunsch
naocaber.org

Um dos projetos da artista Graziela Kunsch na 31ª Bienal foi a proposição, para a prefeitura de São Paulo, de uma linha experimental de ônibus, circular, sem destino conhecido. Esse ônibus deveria passar pelas ruas e avenidas da cidade de São Paulo e parar nos pontos de ônibus regulares. A cada vez que o ônibus parasse em um ponto, todas as suas portas se abririam – a da frente, a de trás e a do meio. As pessoas poderiam entrar ou sair por qualquer uma das portas. Dentro do ônibus não haveria uma catraca e ele seria gratuito. Ali na frente, no local onde normalmente se escreve o destino do ônibus, estaria escrito “TARIFA ZERO”.

Esse projeto só poderia acontecer com o apoio da Prefeitura de São Paulo, que deveria fazer sua implantação e o investimento necessário para a existência da linha. No entanto, a prefeitura não demonstrou interesse pelo projeto.

Para realizá-lo, a artista convocou integrantes de movimentos sociais que vêm realizando experiências de linhas populares de ônibus Tarifa Zero para um workshop, em que foram compartilhadas experiências, práticas e estratégias. Estavam presentes no encontro integrantes do Movimento Passe Livre de São Paulo e de Ribeirão Preto, da Luta do Transporte no Extremo Sul, do Movimento Tarifa Zero BH, o editor do portal Tarifa Zero.org e moradores da região de Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo). O que a artista só revelou depois, em uma performance realizada no Palácio das Artes (Belo Horizonte), em uma atividade da itinerância da Bienal, é que o cachê de todos os participantes do workshop foi por eles doado aos movimentos, para que realizassem novas experiências de linhas populares de ônibus Tarifa Zero em suas cidades. O cachê que a artista recebeu pela performance em Belo Horizonte também foi doado por ela para o movimento Tarifa Zero BH (e a própria doação caracterizou sua ação como uma performance).

A ideia inicial do Ônibus Tarifa Zero na Bienal não aconteceu na prática, mas, para a artista, “existe como um projeto – ou como um horizonte, um destino – num esforço de imaginação coletiva radical”. O trabalho aponta para o papel da arte na construção de um novo imaginário de cidade e também para as potentes relações entre a arte e a esfera pública, trazendo ao debate processos tão importantes como a luta pelo direito à cidade e o uso de dinheiro público (seja o destino dos recursos de uma prefeitura, seja o destino dos recursos de uma exposição de arte feita por meio da Lei Rouanet).

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One of the projects by artist Graziela Kunsch at the 31st Bienal was the proposal, to Sao Paulo’s city hall, of an experimental bus line, circular, without a known destination. This bus should pass through São Paulo streets and avenues and stop at the regular bus stops. Every time the bus would stop, all of its doors would open – the front door, the back door and the middle door. People could walk in or out using any door. Inside the bus there would be no turnstile and it would be free. In the place where the bus destination is normally written, one would instead read “TARIFA ZERO” (FARE FREE).

This project could only have happened with the support of São Paulo’s city hall, that should have made its implementation and the investment required for the existence of the line. However, the city hall wasn’t interested in collaborating with this project.

In order to do the project, the artist invited members from Transport social movements that had been doing popular and fare free bus lines for a working session, in which they shared experiences, practices and strategies. There were militants from Movimento Passe Livre São Paulo and Ribeirão Preto, Rede de Luta do Transporte no Extremo Sul, Movimento Tarifa Zero BH (Belo Horizonte); the editor of TarifaZero.org; and people who live in the extreme south of São Paulo, where there are no buses available. Only later, in a performance held at Palácio das Artes (Belo Horizonte), as part of an itinerancy of the 31st Bienal, the artist revealed that the payment that each participant of the workshop received was donated by them to the social movements, so that the movements could do new popular and fare free lines in their towns. The payment that Graziela received for doing this performance was also donated by her to Movimento Tarifa Zero BH (and the donation is what qualified her talk as a performance).

The original idea of the Fare Free Bus didn’t happen but, for the artist, “it exists as a project – or a horizon, a destiny – in an effort of radical collective imagination”. The work points to the role of art in the construction of a new imaginary of cities and also to the powerful relationships between art and the public sphere, bringing to debate issues related to the struggle for the right to the city and to the use of public money (be it the destination of the resources of a city hall, be it the destination of the resources of an exhibition built with public funding, through the Brazilian law called Lei Rouanet).